Há vida depois dos Jogos Olímpicos?
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- Parent Category: Gerir ID
- Category: Construção desportiva
- Created: 19 July 2015
- Published: 19 July 2015
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O que fazer às instalações desportivas construídas para os grandes eventos desportivos?
Uma das grandes questões com que os decisores políticos se debatem relaciona-se com o investimento obrigatório para receberem no seu país um grande evento desportivo de características internacionais. Desde um evento de classe continental como os Jogos Africanos ou um campeonato mundial de uma modalidade até aos mais mediáticos e importantes como os Jogos Olímpicos ou World FIFA Cup, o caderno de encargos, da responsabilidade das respectivas entidades que tutelam as modalidades ou organizações, exigem condições faraónicas aos organizadores locais (LOC - Local Organising Committee) e repartem numa percentagem diminuta as mais valias obtidas, principalmente ao nível da sponsorização e direitos televisivos.
O que fazer?
Não deverá então um país organizar um grande evento desportivo internacional, quando tal poderá ser um veículo de promoção regional/internacional do país e eventualmente uma oportunidade para promoção e desenvolvimento desportivo?
Em primeiro lugar importa referir, que por si só, a organização de um evento desportivo internacional não significa desenvolvimento local da modalidade. Este consegue-se aproveitando a realização deste evento desportivo internacional para, antes, durante e depois se desenvolverem diferentes acções e actividades que, numa organização coerente, aproveitem o momento e envolvam agentes que transformem para melhor a modalidade desportiva e a sua aceitação junto de praticantes e população em geral.
Numa outra vertente do problema, importa referir, que as organizações desportivas internacionais (IAAF, FIFA, FIBA, IOC, FISU, etc.) que gerem as diferentes associações e modalidades fazem exigências faraónicas nos respectivos cadernos de encargos para a organização destes grandes eventos.
Naturalmente que os pretendentes à sua organização conhecem bem os cadernos de encargos exigidos. Que façam bem as contas já temos algumas dúvidas!
As elevadas receitas que alguns destes eventos possam gerar, nomeadamente ao nível de sponsorização e direitos televisivos, regra geral, ficam na quase totalidade ou em grande parte para as organizações supervisoras, restando para o LOC (Local Organising Committee) algumas migalhas, regra geral insuficientes para compensar o investimento efectuado.
Então não deverá um país candidatar-se à organização de um grande evento desportivo internacional?
SIM! Deverá, desde que considere muito bem os diferentes cenários e opções relativamente aos prós e contras, e principalmente, controle muito bem a factura do evento!
Qual a responsabilidade social que estes eventos aportam e que consequências positivas para o desenvolvimento local nos oferecem?
Geralmente a grande fatia, senão a totalidade, do investimento tem origem em dinheiros públicos!
Para além do custo inicial (muito elevado) na construção de instalações desportivas (ID) especializadas para o espectáculo desportivo há que equacionar muito bem o que fazer com as mesmas após a realização do evento. Normalmente as exigências feitas pelas organizações desportivas internacionais (ODI) são tão disparatadas (em nosso entender) que os decisores deveriam ter capacidade argumentativa e de discussão sobre a tipologia dessas mesmas ID junto das ODI. Alguns exemplos:
- Para as competições de nível 1 (high level competitions) a FIBA exige instalações de grande qualidade, tipo pavilhão multifuncional (vulgo multiusos) aos quais se exige uma capacidade para 10 000 a 15 000 espectadores, para além de uma série de instalações de apoio a participantes e espectadores! - FIBA
- Para as competições de nível I (Campeonatos do Mundo de Atletismo e Jogos Olímpicos) exige-se para além da pista de atletismo standard (nível I) de pelo menos 8 corredores, uma segunda pista de 400 mts (área de aquecimento) ao lado com pelo menos 4 corredores na oval e 6 na recta! - IAAF
- Para jogos internacionais o estádio deve ter 30 000 lugares sentados, 50 000 para Taça Continental ou 60 000 para a final do Campeonato do Mundo - FIFA Worls CUP" - FIFA
"The media coverage of the Rio de Janeiro bid for the 2016 Olympic Games focused on the capacity of the Olympic Games to aid in the transformation of the “underdeveloped” city to meet the Northern or Western standards of infrastructure and social programming provision. The Olympic bid represented to Brazil a chance to show the world that it was now a competitive, influential, modern country, to both investors and tourists, and to showcase its economic growth. However, as explored throughout the discussion the media framed the bid as an opportunity to spur development and create a positive social transformation not only in Rio de Janeiro but also throughout all of Brazil, which would not be possible without the hosting of the Olympic Games.A quote from the former President of Brazil Lula da Silva shared within the discussion portion of the article stated that “for other countries the Olympics is just another sporting event—for us it will be unique and extraordinary” (Irwin, 2009a, para. 14)." in Social Responsibility and the Competitive Bid Process for Major Sporting Events - Meaghan Carey, Daniel S. Mason, and Laura Misener- Journal of Sport and Social Issues XX(X) 1–18
E depois da festa? O que acontece?
Aqui reside o problema maior! O que fazer com estas ID sofisticadas, gigantes sorvedouros de verbas? São os verdadeiros elefantes brancos!
Recentemente surgiram mais alguns dados que confirmam a tese dos elevados custos a fundo perdido que após a festa caem em cima dos contribuintes:
- "Japanese Prime Minister Shinzo Abe on Friday ordered a complete review of plans for Tokyo's 2020 Olympic stadium amid growing public anger over its $2-billion price tag."I have decided we need a full review of the plans and must go back to the drawing board," Abe told reporters after meeting Tokyo 2020 president Yoshiro Mori, sports minister Hakubun Shimomura and Olympics minister Toshiaki Endo." in http://www.businessinsider.com/afp-japan-pm-orders-full-review-of-2020-olympic-stadium-2015-7
- "The 2004 Athens Olympics went nearly $15 billion over its initial $1.6 billion budget, according to economist and professor Andrew Zimbalist, who wrote a book on the true cost of hosting large sporting events. The majority of the cost overruns fell on the Greek government, which built all the expensive, highly specific buildings you need to host the Olympics — a village, a media center, an Olympic stadium, a canoe/kayak slalom center, etc." in http://www.businessinsider.com/2004-athens-olympics-venues-today-2015-7
- "After spending an estimated $51 billion to host the 2014 Olympics, Russia has budgeted nearly $12 billion more for the 2018 World Cup. As a result, it's expected to be the most expensive World Cup in history.With 12 stadiums across 11 host cities – Moscow, St. Petersburg, Kaliningrad, Nizhny Novgorod, Kazan, Samara, Saransk, Volgograd, Rostov-on-Don, Sochi, and Ekaterinbur — Russia has had to build several new venues from scratch and renovate many others." in http://www.businessinsider.com/what-russias-world-cup-stadiums-look-like-2015-7
- "Passado exatamente um ano da abertura da Copa do Mundo no Brasil, os estádios, anunciados como o principal legado esportivo para o país, se tornaram uma dor de cabeça para clubes, governos e concessionárias.
Oito dos 12 estádios construídos ou reformados para o Mundial são deficitários. Acumularam em 2014 prejuízo superior a R$ 126 milhões.
Levantamento realizado pela reportagem da Folha aponta que Arena da Baixada (PR), Arena Pernambuco, Arena Pantanal (MT) e Maracanã fecharam o ano de 2014 no vermelho.
Também ficaram no prejuízo Fonte Nova (BA), Mané Garrincha (DF), Arena da Amazônia e Castelão (CE).
E os oito estádios seguem com dificuldades para se viabilizar financeiramente.
Só Itaquerão, Mineirão, Beira-Rio e Arena das Dunas tiveram lucro. A arena corintiana, porém, ainda não começou a ser paga..!" in http://www1.folha.uol.com.
- "Researchers have known for years that hosting large sporting events like the Olympics always costs more than expected and always yields less revenue and useful long-term infrastructure than estimated. Now voters and politicians in democratically elected countries are starting to realize the same thing. Potential host cities are dropping out of the bidding process for the 2022 Winter Olympics like crazy.Deadspin's Barry Petchesky has a breakdown of the cities that have scrapped their campaigns to host the event.Krakow, Munich, and Davos/St. Moritz all withdrew their bids after the public voted against hosting. Stockholm withdrew after the city's government said that "revenues will likely be lower and costs higher" than estimated. Oslo's bid is on life support amid mounting public opposition. And Lviv, Ukraine's bid looks to be all but finished in the face of widespread unrest in the country.Bidding on the Olympics has been justified for years by one big economic lie: investing in hosting Olympic Games will lead to long-term economic growth.It doesn't." in http://www.businessinsider.com/2022-olympics-host-cities-2014-5#ixzz3gLep31tJ
- "The future of the Sochi Olympic venues is unclear.Alexander Valov, a Russian reporter for BlogSochi, visited Sochi's "coastal cluster" — a site that includes six venues, the Olympic Village, and the Olympic Park, all built from scratch on an undeveloped plot of land — and he took some eerie photos this week. He called the area around the Olympic Village "Dead City." in http://www.businessinsider.com/sochi-ghost-city-2014-3?op=1#ixzz3gLgkEeqT
Num livro recentemente publicado chamado"The Olympic City" Jon Pack e Gary Hustwit mostram-nos o que aconteceu às instalações e infraestruturas criadas para albergar jogos olímpicos. Nestas treze cidades é notório o abandono e os custos elevadíssimos para além da festa!





